segunda-feira, fevereiro 28, 2005

RÁDIO MACAU - Disco Pirata (2005)



Já lá vão 20 anos mas parece que foi ontem que os miúdos de Algueirão se estrearam com um álbum de música moderna de génese urbana, singular ao ponto de interessar Zeca Afonso. A aventura começou em 1985 e a música dos RADIO MACAU metamorfoseou-se mas nunca perdeu essa singularidade que evoca personagens habitadas pela cidade, mistura estranha de humores urbanos, surrealismo quotidiano, sombras e luz deslizando sob o olhar atento dos relógios. É também um caso em que as palavras permanecem muito para lá do tempo de duração de cada disco. Disco Pirata é a nossa prenda de aniversário e esta reedição subtrai alguns temas do CD original para dar lugar a quatro gravações mais recentes que espelham a cumplicidade entretanto adquirida com texturas mais electrónicas. Com o CD vem um pequeno livro de contos (há quem diga que é ao contrário...) inspirados na banda e suas canções escritos pela mão de gente como Jorge Palma, JP Simões, António Pires, Vítor Belanciano, Rui Monteiro, Ana Cristina Ferrão, Henrique Amaro e o próprio Flak entre outros. O conjunto pode ser adquirido com o jornal Blitz desta semana (e da próxima) que também traz uma excelente entrevista com a banda onde se faz um balanço de todo o projecto, se pescam algumas memórias e o Jorge Mourinha dá as explicações que faltam ao inlay do CD. Muitos parabéns, portanto, e aproveito para recordar que a ocasião também é propícia à recuperação dos máxis A Vida Num Só Dia (EMI, 1985) e O Anzol (EMI, 1987) - já era tempo!
Posted by Hello

sexta-feira, fevereiro 25, 2005

LOGH - A Sunset Panorama



Nunca cheguei a ouvir Every Time A Bell Rings An Angel Gets His Wings mas os elogios despertaram-me a curiosidade para A Sunset Panorama, disco deste ano que arranca de forma promissora com destaque para Sunset Knife Fight que possuí uma qualidade cinemática extraordinária. Infelizmente, no resto do álbum não se encontra mais nenhum tema com este nível e, a certa altura, a música é dominada por uma monótona reverência à dinâmica de guitarras que caracteriza os Sonic Youth sempre que engrenam o ponto morto. A inspiração regressa perto do fim com Smoke Will Lead You Home mas já não é suficiente para afastar um travo de desapontamento. Um álbum com qualidades, ainda assim. (6/10)

quinta-feira, fevereiro 24, 2005

RONNY ELLIOTT - Valentine Roadkill



Nunca tinha ouvido Ronny Elliott, apesar do senhor ter uma discografia apreciável, e Valentine Roadkill chegou-me através da Mojo que o elegeu o melhor álbum de “Americana” na edição de Março. Basta ouvi-lo para concordar: pedal steel, banjo, a presença sinuosa de um saxofone e de um clarinete e uma cadência tão subtil que as canções mais parecem uma indolente sedimentação de partículas sonoras com silêncio suficiente entre elas para a voz respirar as memórias de heróis e penitentes do sonho americano. O brilho intenso das palavras de Ronny Elliott levaram a Mojo a descrever o álbum como country blues ao estilo de Jerry Lee Lewis caso ele fosse um poeta beatnik, ou Townes Van Zandt se este tivesse um grau académico. Oiçam os belíssimos manifestos contra a guerra de No More War ou Hope Fades (“all the beautiful sinners from the heart of the South / western boots on their feet, cold teeth in their mouths”), o puzzle de memórias retiradas ao séquito de Phil Spector (Do Angels Ever Dream They're Falling) e Hank Williams (When Idols Fall) ou o discurso desarmante de um condenado (Mr. Edison's Electric Chair). Lottie é uma das minhas favoritas e abre com uma daquelas confidências que arrebatam todos os sentidos em simultâneo: “I was dreaming about Lottie again last night / I believe she was seating at the piano / and I thought I smelled fried peach pies”. Excelente!

quarta-feira, fevereiro 23, 2005

BOBBY DARIN - The Hit Singles Collection



Bobby Darin foi um ídolo adolescente e “pop songwriter” na América dos anos 50 graças a êxitos como Splish Splash e o celebérrimo Dream Lover que, mais tarde, se metamorfoseou num intérprete de craveira (na senda do lendário Rat Pack e de Sinatra) com uma versão de Mack The Knife e a excelente Artificial Flowers (que eu, pessoalmente, adoro!), entre outros temas. Ainda teve tempo de experimentar a “country & western” e, pelo caminho, orientou um jovem Roger McGuinn e descobriu Tim Hardin. Kevin Spacey presta-lhe a devida homenagem no filme deste ano, Beyond The Sea, (título de outro dos seus êxitos) a propósito do qual a Mojo de Março lhe dedica algumas páginas que merecem leitura. Nesta colectânea da Rhino (2002) encontram 20 canções fundamentais do senhor. Vale bem a pena e lança luz sobre um período da música popular tão ignorado.

GUN CLUB - Pastoral Hide & Seek



Já distante do blues/punk selvático de Fire of Love (1981), o álbum de 1990 dos GUN CLUB é uma vigorosa (The Straits of Love and Hate, Another Country’s Young) e deliciosamente melódica, celebração de rock alternativo. Retém parte da energia do excelente disco anterior (Mother Juno, 1988) mas a produção é mais lustrosa sem que isso se sobreponha ao talento de Jeffrey Lee Pierce na escrita de canções. As letras preservam o carácter sinuoso (Emily’s Changed) e a interpretação perde em ímpeto o que ganha em cores melodramáticas. Uma jóia injustamente esquecida e subestimada na comparação com a restante discografia. (7/10)

domingo, fevereiro 06, 2005

Primeiro grande álbum de 2005



Este disco vai crescendo de dia para dia e, já não tenho qualquer dúvida, vai ficar como um dos mais extraordinários álbuns editados durante 2005. Muito perto da perfeição. Como alguém disse: in twenty years from now on, it will be reviewed, in "Mojo", filed under "Buried Treasures".

Un altro grande disco da due mila e cinque, Meninos e meninas, meet JENNIFER GENTLE!




A voz é muito SYD BARRETT e existe uma colagem óbvia aos PINK FLOYD circa The Piper at the Gates of Dawn mas as canções são uma balbúrdia multicolor, o entusiasmo é irresistível e o disco acaba por ser uma pérola. Começa como uma manhã radiosa, pelo meio rebenta uma tempestade medonha e o dia termina com os flocos de neve a soltarem-se, leves, do céu. Estou convencido que muita gente no Fórum Sons vai gostar deste álbum. Psicadelismo exótico muito divertido, uma bela surpresa destes italianos via Sub Pop!