segunda-feira, março 07, 2005

GAME THEORY - Blaze of Glory



O que hoje seria uma obra-prima da estética low-fi em 1981 emergiu como um torvelinho de energia punk, melodias soberbas e um lirismo obliquo e palavroso, tudo produzido de forma nervosa e confusa e embrulhado em sacos do lixo porque não havia dinheiro suficiente para uma capa decente. Talvez esta impetuosidade seja o encanto que me faz regressar tantas vezes a Blaze of Glory, o disco estreia dos Game Theory, apesar de, objectivamente, não ser nada fácil defender as suas qualidades musicais. É nítida a dívida aos Big Star, Beatles e ao psicadelismo melódico dos anos 60 mas a estrutura angular das canções protagonismo das guitarras e sintetizadores colocam o som mais perto de contemporâneos como os Sneakers, dB’s ou Three O’Clock. As letras Scott Miller são vinhetas sobre a turbulência emocional das relações amorosas escritas num estilo críptico, por vezes indecifrável, com referências a campus universitários, paixões adolescentes e Franz Kafka – tudo acaba por soar à banda new wave de James Joyce. Blaze of Glory acabaria ultrapassado pela pop-rock conciso e prudente do excelente Big Shot Chronicles (1986), pela obra-prima de power-pop experimental, o duplo-álbum de 1987 Lolita Nation, e até mesmo pela abordagem estritamente comercial de 2 Steps From the Middle Ages (1988). Mas aqui transpira o genuíno retrato do artista enquanto jovem e, ao ouvir estas canções, é impossível resistir ao sorriso de desafio, brilho nos olhos e ingenuidade de quem as interpreta.

Game Theory - Blaze of Glory (Rational, 1981) [editado em CD em 1993, pela Alias Records, com o EPs Pointed Accounts of People You Know (Rational, 1983) e Distortion (Rational, 1984)]