terça-feira, maio 24, 2005

KRISTIN HERSH - El Baile Apolo, Barcelona (2001.05.16)

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Em Maio de 2001, Sunny Border Blue tinha acabado de sair e a minha namorada (agora esposa) voou-me até ao El Baile Apolo, em Barcelona, para assistirmos ao concerto acústico de KRISTIN HERSH. Sendo as THROWING MUSES a banda de referência da minha adolescência tratou-se de um acontecimento mágico sobre o qual escrevi poucos dias depois no Fórum Sons. Em vésperas do reencontro no Santiago Alquimista apeteceu-me recuperar o texto da altura:


Digo-vos: sempre gostei muito de música mas nunca fui dado a fanatismos. Até ouvir “Finished”. Só mais tarde vi o rosto adolescente do caleidoscópio sonoro e lírico de “Throwing Muses” (1986) e “Chains Changed” (1987). Estávamos em 1988, o vídeo chamava-se “Fish” e eu tinha 16 anos. A partir daí tornou-se pura devoção. E durante muitos meses uma obsessão. Aos 16 anos é fácil sermos tomados por obsessões e fantasias. A minha era a de partilhar um espaço com Kristin Hersh.

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Seria muito difícil imaginar um espaço perfeito para este encontro. Seria muito difícil imaginar um espaço melhor que El Baile Apolo em Barcelona. A entrada é insuspeita e a impressionante máquina promocional investiu numa folha de papel A4 colada no vidro da porta com as minúsculas letras “Kristin Hersh 22.00 H” para divulgar a coisa. El Baile Apolo, um elegante e antigo clube de jazz, é uma pequena pista de dança limitada por um bar e um estrado que servirá de palco. Algumas mesas de café e cadeiras foram espalhadas pela pista para uma audiência que não chega a duas centenas. A luz é mínima e a acústica excelente. Chegamos cedo e ocupamos uma mesa. Se me levantar e der três passos largos em frente estou em cima do palco. Sem exagero. É uma espécie de café-concerto. O ambiente é de serão entre amigos.

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Conversa-se distraidamente quando Kristin, passo apressado, entra em cena e se senta à nossa frente. ‘Guitar pick’ entre os dentes, pega numa das duas guitarras acústicas que começa a afinar ignorando o público. Alguém se apercebe e surgem aplausos solitários que crescem até se tornarem numa ovação de boas vindas. Kristin deita um olhar fugidio à sala e murmura um “Hello” quase imperceptível. Absorta com a guitarra, ataca “Your Dirty Answer”.

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“It has been suggested that I was insane during the Muses early days, something I have vehemently denied in my effort to prove that this stuff could come out of our girlfriends our sisters, and our mothers. Listening now, I wonder if I was all there, but maybe that was the point. Our girlfriends, sisters and mothers have been known to go elsewhere at times, too.”

KH, Junho de 1998

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Alguém se recorda do vídeo de “Fish”? Nervosa, cantando entre dentes, de olhar fixo enquanto sopra a teimosa madeixa loura que lhe cai sobre a face e segurando a guitarra eléctrica com tal força que parece desfazer-se a qualquer momento nas suas mãos. A imagem de ‘angry young woman’. Fascinava porque podia ser qualquer uma das minhas colegas de turma ou a rapariga da porta ao lado vociferando sobre Kafka e peixes de olhar vítreo crucificados nas paredes de casa. Ou uma das nossas irmãs ou namoradas decidindo fundar o seu próprio grupo rock sobre uma citação de Martin Heidegger e na leitura de TS Elliot. Kristin não olha o seu público. Amarra o olhar num ponto distante do fundo da sala e embala a guitarra com os movimentos de um batedor – esquivando-se dos olhares curiosos, torneando as imagens mais difíceis e gritando o que mais lhe custa cantar. Foi um início tão solitário que nem parecia estar ali. E como aqueles olhos brilhavam...

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Afinal o estado natural de Kristin Hersh em palco é a mais pura timidez. Para mim, depois de ter lido dezenas de entrevistas, é uma surpresa. Quando, finalmente, se dirige ao público fá-lo num tom monocórdico, sedado e raramente olhando em frente. Absorvida com a afinação da sua guitarra, vai dizendo em jeito de ladainha:

“It’s Tuesday night. Nobody does anything on a Tuesday night. What are you doing out?”
Resposta anónima: “We came to see you”
“Oohh... I am impressed. Don’t you have to work tomorrow?”
“yeah”
“Me too”

Mais adiante introduz “Uncle June and Aunt Kiyoti” mencionando o pai (“He wrote this song for me. My father did a lot of drugs when he was young so you don’t have to listen to the words”) e descreve com humor a infortúnio da menina de “Down in the Willow Garden” à luz do folclore dos Apalaches. Não é efusiva mas é genuína. Não se esforça por divertir a audiência mas na conversa ocasional que se vai instalando nota-se a sua curiosidade em conhecer quem são aquelas pessoas que saíram de casa numa Terça à noite para a ouvir cantar. Porque é que estão ali?

*

Alguém que não consigo ver grita, com um sotaque americano, “Cry Baby Cry!”
Kristin olha para o fundo da sala visivelmente surpreendida: “Cry Baby Cry?! Whoa!! Who are you?”
“I’m from Rhode Island”
“Rhode island? What are you doin’ here?”
“Hangin’ ‘round”
“Hangin’ ‘round...humm... let’s see, what was i supose to play...? Oh, i got it.”

Não surgem temas antigos no alinhamento. Kristin recua até “Real Ramona” para uma versão acústica deslumbrante de “Hook In Her Head” a milhas do insípido original de estúdio. “Tar Kissers” é a convidada de “Limbo”. Espreitam “Sundrops”, “Velvet days”, “Me & My Charms”, um hipnótico “Close Your Eyes” e o inevitável “Your Ghost” – todos de “Hips & Makers”. De “Strange Angels” somos mimados com “Heaven” e “Gazebo Tree”. Alguém devia editar este concerto. Ou qualquer outro desta digressão que seja tão intenso quanto este. À medida que Kristin desfia os temas de “Sunny Border Blue” apercebo-me, para meu espanto, que o álbum não faz justiça às canções que estou a ouvir. E nenhuma gravação fará alguma vez justiça à interpretação a que estou a assistir aqui.

*

Kristin por vezes assusta. Quando o tom de voz se eleva parece que grita connosco. Parece enfurecida e a sua voz enrouquece e treme para, logo de seguida, passar a um lamento. Uma voz masculina pede “Pearl” e ela acede (“I’m not sure i remember the words. Could you sing it? It’s from the female point of view...”). Subitamente chovem pedidos. Eu não precisei de pedir nada: esta noite Kristin tocou “Teeth”, que eu acompanhei palavra por palavra porque é a canção que me deixa um nó na garganta sempre que a oiço, e só por esse momento fez todo o sentido estar em Barcelona nesta noite. “You’re so tall / It’s like i climb a waterfall...”. Quando termina recebe uma ovação.

*

Termina o último tema do encore e Kristin abandona o estrado como entrou: ligeira mas, agora, com um aceno para a escassa plateia e um sorriso rasgado. Os aplausos prolongam-se mas desta vez é claro que o concerto terminou. Fica aberta uma réstia da cortina por onde desapareceu e ainda estou à espera de a ver regressar. Pouco a pouco, a sala vai ficando vazia mas fico teimosamente no lugar. Nesta minha fantasia ainda há um bar acolhedor e um convívio informal à volta de uma bebida em que se fala de sonhos adolescentes, concertos inesquecíveis e de um convite a visitar um país à beira mar plantado. Afinal, até há um bar convidativo aqui mesmo ao lado... Alguém vem na minha direcção com um sorriso em jeito de desculpa: Nosotros tenemos que fechar.

*

Cá fora está uma noite agradável. É cedo e as pessoas vão dispersando para a animação nocturna de Barcelona. Tiramos umas fotos à fachada do El Baile Apolo. O Hotel está ali perto e nesta noite já não há lugar para mais recordações. De Barcelona não quero outra recordação. Ainda vejo Kristin sorridente a abandonar o palco e lembro-me das palavras escritas em “In A Doghouse”:

“Besides, the idea was always to leave a big, fancy present on the table and tiptoe out of the room “

4 Comments:

Blogger inominável said...

Depois de te ler, fiquei com vontade de ir ver o concerto de Kristin Hersh, mas já comprei o bilhete para Quinteto Tati. Só tenho um disco das Throwing Muses, apesar de que gostaria de conhecer mais deles e dela a solo. Enfim, vou me arrepender do que vou dizer, mas fica para a próxima.

8:46 da tarde  
Blogger Familycat said...

Não conheço o espaço do Santiago Alquimista mas se for tão intimista como a sala de Barcelona há fortes possibilidades de ser uma noite mágica. Não o perdia por nada deste mundo... ;)

Os discos a solo da KH são mais representativos destes concertos acústicos. Quanto às MUSES, o essencial está no duplo-cd "In a Doghouse" e na edição da 4AD que junta "House Tornado" e o mini-lp "The Fat Skier". Compras essenciais.

11:35 da tarde  
Blogger inominável said...

O disco que tenho é o Throwing Muses de 86. E não o ouço há anos. Já um amigo meu - super fã da Kristin - tinha-me aconselhado o "In a Doghouse". Acho que não passa desta vez, vou tentar encontrá-lo no fds. Acho que vais gostar do Santiago. É uma sala muito gira. Bom concerto

2:35 da tarde  
Blogger David Skul said...

Latin American Destination Wedding Ideas

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8:45 da tarde  

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